O presidente do Conselho Superior da Justiça do Trabalho e do Tribunal
Superior do Trabalho, ministro Ives Gandra Martins Filho, abriu na
sexta-feira (11) o I Workshop de Efetividade da Execução Trabalhista. O
evento, que contou com a participação de representantes da Polícia
Federal, de auditores fiscais, procuradores do trabalho e magistrados,
visou aprimorar as técnicas de investigação da análise patrimonial, para
identificar tentativas de fraudes no pagamento de direitos do que foi
determinado pela Justiça do Trabalho.
"Esses eventos são essenciais para mostrar o trabalho que vem sendo
feito para aprimorar a execução trabalhista e para mostrar as
potencialidades das ferramentas que temos disponíveis para localizar
patrimônio de empresas ou de pessoas físicas que estão sendo
executadas", destacou Ives Gandra.
De acordo com o coordenador da Comissão Nacional de Execução
Trabalhista, ministro Cláudio Brandão, as experiências trocadas
permitirão a capacitação de magistrados que atuam na área, melhorando o
processo de trabalho. "Nosso objetivo é apanharmos o conhecimento das
pessoas que têm um bom trabalho na área e capacitar os magistrados que
atuam nas execuções para que eles disponham de mais ferramentas para
localizar os bens das empresas."
Fraudes patrimoniais
No primeiro painel do workshop, o coordenador da Rede Nacional de
Laboratórios de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (Rede Lab-LD),
Leonardo Terra, apresentou as metodologias e a tecnologia para análise
de dados aplicada para identificar fraudes patrimoniais.
De acordo com ele, a ferramenta utiliza de alta tecnologia para
análise de dados financeiros, bancários e fiscais visando investigações
criminais. Pela Rede-Lab-LD são apurados procedimentos que envolvem
lavagem de dinheiro, corrupção, crime organizado, crimes contra o
patrimônio público e outros ilícitos envolvendo quebra de sigilo
bancário, fiscal ou grandes volumes de dados de diferentes fontes e
formatos.
Em outubro, o CSJT firmou acordo de cooperação com o Ministério da
Justiça regulamentando a implantação da Rede Lab-LD na Justiça do
Trabalho. A ferramenta permitirá que empresas que tentam fraudar
falência na tentativa de se isentar do pagamento de direitos
trabalhistas sejam facilmente identificadas.
Dossiê integrado da Receita Federal
O juiz do trabalho do TRT da 3º Região (MG), Marcos Barroso, falou
sobre o dossiê integrado da Receita Federal, sistema que fornece
informações compiladas sobre operações de locação imobiliária, operações
de cartão de crédito, declarações de rendas de pessoas físicas,
alterações de propriedades imobiliárias, operações de comércio exterior,
entre outras.
Ele orientou ao longo de sua palestra, o passo a passo para requerer
o dossiê, que deve ser feito por meio de ofício pelo magistrado, já que
o dossiê não está disponível no InfoJud.
Ao longo de sua explanação, foram feitas análises de casos concretos
e demonstrados exemplos práticos de sentenças concretizadas com a
utilização do dossiê.
SIMBA na execução da Vara Vasp
O juiz do trabalho da 2ª Região, Flávio Bretas, que responde
atualmente pelo Juízo Auxiliar em Execução (JAE – Vara "Vasp"), contou
aos participantes sobre sua experiência no processo de execução da
companhia aérea, falida em 2008, e das dificuldades e alternativas para
encontrar os bens da empresa para pagar os trabalhadores.
De acordo com ele, o Sistema de Investigação de Movimentações
Bancárias (SIMBA), que permite a movimentação de dados entre
instituições financeiras e órgãos públicos, mediante prévia autorização
judicial de afastamento de sigilo bancário, foi um grande aliado na
busca patrimonial.
A Vasp é a maior devedora trabalhista do país. O processo é tão
longo, extenso e complexo que existe uma Vara do Trabalho que cuida
apenas de processos que têm a empresa como parte, a chamada Vara Vasp,
na jurisdição do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, na capital
paulista. Atualmente, o passivo da companhia é de R$ 2 bilhões.
De acordo com Bretas, já foram arrecadados e distribuídos mais de R$
4,5 milhões para o pagamento de dívidas trabalhistas, beneficiando
cerca de 8.500 trabalhadores. O montante é proveniente da alienação de
bens de pessoas integrantes do grupo Canhedo.
Arranjo de pagamento
O assessor do departamento de regulação do Sistema Financeiro do
Banco Central do Brasil (Bacen), Humberto Carlos Zendersky, falou sobre
os arranjos de pagamento online por bitcoin, Paypal e cartões pré-pagos.
"Os arranjos de pagamento são possibilidades de uma doação de
recursos nas contas de pagamento. Essas contas de pagamento vão integrar
o Cadastro de Clientes do Sistema Financeiro Nacional (CCS) e vão poder
ser acionadas via BacenJud assim que as instituições de pagamento
estiverem autorizadas, essa é a contribuição dos arranjos para Justiça
Trabalhista."
Ele destacou que de acordo com a Lei 12.865/2013 os recursos
mantidos em conta de pagamento, constituem patrimônio separado, e não se
confundem com o da instituição de pagamento. Assim, não podem ser
objeto de arresto, sequestro, busca e apreensão ou qualquer ato de
constrição judicial.
O assessor apresentou ainda a dinâmica da utilização da moeda
virtual, afirmando que estas não são emitidas nem garantidas por uma
autoridade monetária e não tem garantia de conversão em moeda oficial.
"Por outro lado, elas têm variação de preços muito grande e rápida, são
vulneráveis e tem rastreabilidade reduzida. Estão fora da regulamentação
do Bacen e não conseguem ser rastreadas."
De acordo com ele, as moedas de bitcoin são como ativos de proteção
em mercados politicamente instáveis e devido a isso, a preocupação é com
a lavagem de dinheiro.
Técnicas de investigação e Análise Patrimonial
O agente da Polícia Federal da Delegacia de Repressão a Corrupção e
Crimes Financeiros de Curitiba (PR), Roberto Zaina, apresentou a
metodologia de investigação tradicional utilizada, a partir da
autorização judicial, para elucidação de casos de suspeitas de fraudes
financeiras e de ocultação patrimonial, com o objetivo de identificar a
autoria, realizar a prisão e apreensão, além de recuperar ativos.
Ao demonstrar a metodologia utilizada pela Polícia Federal, o agente
relacionou a cada técnica a descoberta das formas de como empresas agem
para realizar a ocultação patrimonial, o que reflete diretamente em
fraudes trabalhistas, que sem uma investigação efetiva com a elucidação
do caso, propicia a ocorrência de abstenção ou retardamento de execuções
trabalhistas.
"O vínculo da Polícia Federal com a Rede Lab-LD é um ambiente
técnico e de colaboração, no qual os servidores da Justiça do Trabalho"
terão capacidade para realizar a coleta de dados para realizar uma
análise financeira das empresas que possuem dívidas trabalhistas.
Realizando a análise de vínculos cadastrais, societários e
empregatícios," salientou.
Finalizando o evento, o agente da PF, apresentou ideias para evoluir
na análise patrimonial, citando a importância de eventos como o
workshop realizado, a criação de grupos de trabalho, treinamentos e
investimentos em tecnologias e ferramentas como a Red Lab-LD para a
identificação de fraudes financeiras."
http://www.aasp.org.br/aasp/imprensa/clipping/cli_noticia.asp?idnot=23010